Lembro-me bem desse ritmo quando cofundei a Innovari.AI: você desenha o primeiro fluxo de vendas, configura o CRM, resolve a burocracia financeira e, se tiver um perfil técnico, ainda ajuda a estruturar o escopo do produto. Existe um certo orgulho em ser o motor que faz todas as engrenagens girarem.
O problema surge quando o negócio começa a tracionar e o volume de demandas aumenta. De repente, aquela facilidade em absorver novas funções se transforma em uma armadilha silenciosa: só porque eu consigo resolver uma tarefa, não significa que eu deva gastar o meu dia nela. É o momento exato em que o empresário se afasta das decisões de crescimento e a operação passa a cobrar um preço invisível, mas muito alto.
Por que fundadores técnicos se sobrecarregam com a rotina operacional da empresa?
No livro O Mito do Empreendedor, Michael E. Gerber apresenta uma tese clássica que explica perfeitamente essa sobrecarga. Ele defende que todo fundador carrega três personalidades distintas dentro de si: o Técnico (aquele que ama a execução e coloca a mão na massa), o Gerente (focado em criar ordem, processos e rotinas) e o Empreendedor (o visionário que vive no futuro, antecipando os rumos do negócio).
O fundador de uma empresa em estágio inicial costuma ficar preso na personalidade do Técnico. Como ele domina o cerne do negócio — seja um software, um método de engenharia ou um diagnóstico clínico —, assume a premissa de que a operação só manterá a qualidade se passar pelo seu crivo direto. A consequência é previsível: enquanto o seu Técnico apaga pequenos incêndios administrativos diários, o papel de planejar os próximos passos comerciais fica vago. A liderança passa a reagir ao presente em vez de desenhar a expansão da organização.
Qual é o prejuízo financeiro e comercial de manter o empresário fora da liderança do negócio?
Olhando sob a perspectiva da economia clássica, o custo dessa escolha está associado ao conceito de Custo de Oportunidade. Quando avaliamos a alocação de capital humano dentro de uma estrutura enxuta, o tempo do fundador é o recurso mais escasso e valioso da empresa.
"O tempo do fundador é o recurso mais escasso e valioso da empresa. Alocá-lo no operacional estagna o crescimento do negócio."
Se um desenvolvedor brilhante ou um engenheiro civil experiente gasta três horas da sua tarde configurando manualmente uma folha de pagamento ou respondendo a dúvidas operacionais básicas de rotina, o prejuízo não está na execução da tarefa em si. O verdadeiro prejuízo está naquilo que deixou de acontecer enquanto ele estava ocupado: a parceria comercial que não foi fechada, a nova funcionalidade do produto que não avançou ou o planejamento de captação de clientes que ficou para o mês seguinte. É uma alocação ineficiente de competências que estagna o crescimento do negócio.
O que acontece quando a expertise técnica encontra o gargalo da gestão de pessoas?
Ao longo da minha trajetória, acompanhando líderes em momentos de transição complexos na Unilever, na John Deere e na Clara, observei que essa fricção se repete independentemente do tamanho da estrutura. Mas o estalo para abrir a Polisofia veio de um cenário bem específico de PME: o caso de uma empresa de engenharia civil com cerca de 20 pessoas no time.
O fundador, um engenheiro extremamente qualificado no mercado, deparou-se com o crescimento repentino da equipe. Ele passou a tentar abraçar o gerenciamento de conflitos internos, o alinhamento de expectativas e o desenho de processos de comunicação por conta própria. Ele conseguia fazer? Sim, ele tinha capacidade de entrega. Porém, o custo humano foi o esgotamento físico e a perda de tração comercial da engenharia, pois o principal vetor de novas propostas estava atolado em burocracias de pessoal.
O cenário só mudou quando ele aceitou que a gestão de pessoas e a estruturação organizacional exigem uma especialização tão profunda quanto o cálculo de uma estrutura de concreto. Ao delegar o desenho dessa base para um suporte especializado e focado em diagnóstico, ele resgatou o tempo necessário para exercer a sua verdadeira expertise, permitindo que a equipe ganhasse clareza e autonomia para executar os projetos.
Se a sua rotina atual se resume a resolver demandas que puxam você constantemente para fora da sua zona de especialidade, pode ser o momento de reavaliar essa estrutura. O crescimento sustentável não depende de trabalhar mais horas, mas de construir processos e relações humanas sólidas, capazes de sustentar o negócio sem que você precise ser o gargalo de cada decisão.
Se você se reconheceu nessa dinâmica e quer conversar sobre o momento atual da sua empresa, estou aqui. O primeiro passo na Polisofia é sempre uma conversa baseada em escuta, sem propostas genéricas.